Formação inicial: o erro que atrapalhou a Itália na final da VNL masculina
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| (Imagem: Guilherme Mattar) |
(Texto atualizado em 5 de agosto de 2025)
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Eu estava comentando a decisão da Liga das Nações, ontem, quando rolou a situação da Itália.
Confesso que, no calor da jornada remota pela web rádio Bate Fundo Esportivo, não me atinei pra gravidade do negócio. Pensei ser algo simples. Até estranhei quando o treinador Ferdinando De Giorgi pediu tempo logo num 0-2, tamanha a exaltação dos comandados.
Adiante, achei inusitada a “inversão[1]” da Azzurra com um ponteiro – ainda que, no caso, a atuação abaixo do craque Michieletto tornasse a mudança compreensível.
Foi só mais tarde, assistindo à transmissão do Web Vôlei, que me dei conta do pepino. O comentarista Rangel Gurja explicou os detalhes. Então, “rebobinei” o SporTV 2 algumas vezes pra analisar a trama, auxiliado por Nalbert e Marco Freitas.
Daí, observando, lendo e ouvindo calmamente, hoje, a ficha caiu de vera.
A Itália cometeu um equívoco na formação inicial divulgada pro segundo set. Isso gerou problemas de concentração... De posicionamento em quadra... E a perda de um ponto, na metade da parcial.
Conforme a regra, antes do início de um set, cada técnico deve:
“(...) apresentar a formação inicial de sua equipe na ficha de posições ou através de dispositivo eletrônico, se utilizado. A ficha é entregue, totalmente preenchida e assinada, ao 2º árbitro ou ao apontador – ou enviado eletronicamente direto para a súmula eletrônica.”
O texto regulatório alerta, também:
“Uma vez que a ficha de posições seja entregue ao 2º árbitro ou apontador, nenhuma alteração na formação da equipe poderá ser autorizada sem uma substituição regular.”
No sistema 5x1 adotado pelo alto rendimento, costuma-se escalar atletas de mesma função em diagonal. Ou seja: se numa rotação temos um ponteiro na posição 1 (fundo direita), o outro fica na 4 (entrada de rede). Isso mantém o time equilibrado a cada rodízio.
Temos, portanto, três diagonais:
- · uma composta pelos ponteiros;
- · outra pelos centrais (com o do fundo revezando com o líbero);
- · e a terceira contemplando o levantador e o atacante oposto.
Por descuido, os italianos entregaram à arbitragem uma escalação diferente desse padrão. Inverteram-se as posições de Gianelli e Michieletto (como Gurja explana lá por 45min40 desta live, mencionando o efeito disso na ordem padrão das funções de quem fica ao lado de quem). E toda a engrenagem treinada pela atual campeã mundial acabou comprometida.
Na foto abaixo, é possível reparar uma rotação na qual Rychlicki e Gianelli ocupam simultaneamente a zona de frente, enquanto os ponteiros Michieletto e Lavia ficam juntos no fundo, desconfigurando tanto o ataque quanto a defesa latina.
Talvez pela qualidade individual dos jogadores, pelo casamento de redes, ou quem sabe pesando as possibilidades de substituição, a comissão técnica tentou jogar assim por mais da metade da segunda parcial. Até que, no 12-16, tirou Gianelli e Michieletto, reequilibrando a squadra com as entradas respectivas de Bottolo e Sbertoli.
A esta altura, o primeiro set já tinha ido embora. E o segundo também foi, por 25-19. Tal como o terceiro, disputado pela Itália sem o ímpeto necessário: 25-14.
O título rumando às mãos da Polônia de Nikola Grbic, que não tinha nada com a confa.
Difícil imaginar o que aconteceria se o erro não fosse cometido. Até porque os poloneses já eram superiores, antes da treta. Mas o abalo italiano foi inegável. Num dado momento do set derradeiro, por exemplo, Gianelli chegou a conversar reveladora e animadamente com o oponente León, rindo enquanto aguardava o veredicto de um desafio. Nem parecia ser uma final importante, na qual sua seleção perdia por 2x0.
A nós, agora, resta apenas imaginar o clima no vestiário da medalhista de prata desta VNL de vôlei masculino de 2025...
[1] Escrevo assim, entre aspas, porque não foi aquela inversão habitual, com atletas da mesma diagonal, que costumamos ver. A troca inverteu a função dos jogadores, sim, porém contemplou caras de diagonais diferentes.



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