2006: Polêmica, títulos em sequência e a volta do velho fantasma | Especial Zé Roberto, 20 anos na Seleção Brasileira feminina de vôlei

Muito bem! Na série dos 20 anos de José Roberto Guimarães como treinador principal da Seleção Brasileira feminina de vôlei, chego hoje a 2006.

Nesta quarta temporada com o comandante, a equipe verde e amarela atingiu a impressionante marca de 10 títulos consecutivos. Mas, em contrapartida, viu o ressurgimento de um velho fantasma na decisão do Campeonato Mundial, contra a Rússia.

Bora, então, relembrar tudo que rolou com o Brasil nesse período tão intenso?

A POLÊMICA ENTRE ZÉ ROBERTO, BERNARDINHO E FERNANDA VENTURINI

Passado um 2005 inesquecível, a temporada 2006 de Zé Roberto na Seleção começou com... Polêmica.

Em janeiro, surgiu no Estado de S.Paulo a história de que, durante os Jogos Olímpicos de Atenas, a levantadora Fernanda Venturini levava vídeos do time para seu então marido, Bernardinho, analisar. Segundo os rumores, repercutidos ainda na Folha de S.Paulo, Fernanda teria dito a amigos que Zé às vezes deixava as atletas “para baixo.”

Vale lembrar que o treinador havia dado entrevista ao programa Espaço aberto, da Globo News, fazia não muito tempo, declarando que ele e Bernardo não eram amigos. Além disso, criticara a influência externa de maridos nas carreiras das jogadoras, o que foi amplamente entendido como uma cutucada ao comandante do Brasil masculino:

“No feminino, tem muita gente de fora para dar 'peruada'. Os homens têm essa mania. E isso vai acabar influenciando negativamente no trabalho. Tem o técnico-pai, o técnico-irmão e o técnico-marido, que é um dos piores.” (Trecho da entrevista à Globo News, transcrito pelo UOL)

A relação dos dois, se já não era de amizade, azedou de vez. Até o presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, Ary Graça Filho, precisou ir a público jogar panos quentes na controvérsia.

Zé desaprovou a edição do programa da Globo News, e afirmou ter sido mal-interpretado. Mas a rachadura no trio de envolvidos permaneceu.

Em 2019, por exemplo, Bernardinho participou do Conversa com Bial, da Rede Globo, e foi sincero:

“Uma coisa é a admiração profissional, pelo treinador que ele é. Isso é indiscutível (...). Só posso elogiar e reconhecer. Mas houve um fato, e foi um fato pessoal, uma acusação pública. E aquilo, pra mim... Acho que as coisas têm limite.”

“Não é que brigamos... A gente se cumprimenta, mas não tem relação (...). Não há uma relação do tipo que some pro esporte.”

Fernanda, que no calor da polêmica ameaçou marcar uma coletiva quando se aposentasse e contar “quem é o Zé Roberto de verdade”, disse à TV UOL, também no ano de 2019, que pedia, sim, opiniões a Bernardinho no período em que estiveram juntos:

“Meu marido, imagina, o melhor do mundo, e eu não vou conversar? (...) Você pede opinião pra quem é melhor que você, né?”

A ex-levantadora ainda expôs o que considerou o grande problema de Zé na treta da Olimpíada de 2004:

“Você tem que assumir os seus erros. (...). Ele nunca assumiu. O Bernardo, quando perde, fala: ‘eu que perdi, não consegui que meu time jogasse.’ É a primeira coisa. Pode perder pra quem for, até na esquina de casa. Eu acho que faltou isso. (...) Mas, enfim. Quem era o técnico era ele, não era eu.”

ROTINA DE TÍTULOS RETOMADA

Polêmica à parte, o momento impressionante do Brasil foi mantido quando a temporada feminina de seleções teve início.

Preparando-se desde maio, a SFV entrou em quadra e venceu logo de cara, em junho, os torneios de Montreux e de Courmayeur, sagrando-se bi e tricampeã nas competições, respectivamente.

Na sequência, taça inédita. Com um time modificado e realizando rodízios, o conjunto conquistou a Copa Pan-Americana batendo Cuba por 3x1 na decisão, em julho. A novidade ficou por conta da convocação de duas novatas que dariam o que falar no futuro: a central Thaisa, então com 19 anos, e a ponta Fe Garay, com 20.

GRAND PRIX: DEZ TÍTULOS SEGUIDOS E “NOVAS” PONTEIRAS

Então, no Grand Prix, as brasileiras faturaram de maneira invicta o tricampeonato consecutivo e atingiram dez títulos ganhos em série, preponderando ante as russas duas vezes no certame – incluindo na final (3x1).

No campeonato, Zé Roberto realizou experiências relevantes. Tendo a MVP Sheilla cada vez mais consolidada como titular na saída de rede, o técnico testou a oposta Mari como ponteira – assim como Valeskinha, central também trabalhada na entrada.

Na função de líbero, como em toda a temporada, Fabi e Arlene se revezaram no Grand Prix. A disputa entre elas ganharia uma definição mais clara na sequência, junto à chegada da principal competição do ano: o aguardado Campeonato Mundial.

CAMPEONATO MUNDIAL: O FANTASMA RESSURGE

Quando o Mundial aportou, em outubro, tudo que a Seleção de José Roberto Guimarães tocava parecia virar ouro. Desde Atenas, o país não sabia o que era entrar numa competição e sair dela sem a taça.

O retrospecto desde a chegada do técnico, em meados de 2003, era inacreditável. Em 15 competições como treinador principal da SFV, ele tinha faturado 13 títulos, veiculou o Bem Paraná. E só não pegara pódio em um único torneio – a fatídica Olimpíada de 2004.

Com essa credencial toda, o Brasil viajou ao Japão e foi buscar o ouro que escapara da geração de Ana Moser, Ida, Ana Paula, Fernanda Venturini, Marcia Fu e companhia em 1994.

Os jogos avançavam e vitórias de destaque iam e vinham: 3x2 nos Países Baixos, 3x0 nos Estados Unidos, 3x2 na China, 3x1 na Rússia, 3x1 na Sérvia e Montenegro... Logo, a presença na final tornou-se realidade.

Será que agora, na segunda decisão mundial de sua história, voando em céu de brigadeiro, a Seleça enfim botaria a medalhinha dourada no peito?

Infelizmente, não.

Diante da Rússia, o Brasil realizou uma final de tirar o fôlego, definida só no tie-break. Chegou a ter 13-11 de vantagem no quinto set. Porém, levou quatro pontos seguidos e viu as russas fecharem a parcial em 15-13, o confronto em 3x2 e agarrarem o caneco.

DESCONFIANÇA, OUTRA VEZ – E ALGUMAS PISTAS DO FUTURO

Os 10 títulos consecutivos entre 2005 e 2006, de repente, desapareceram. A coincidência de perder os confrontos mais importantes dos dois últimos ciclos olímpicos para o mesmo adversário era tentadora demais para ser ignorada. E o fantasma das “amarelonas” ressurgiu.

Qual era a Seleção Brasileira de verdade? A das 13 taças com Zé em dois anos e meio de trabalho? Ou a que, como repercutia o UOL em 16 denovembro de 2006, “tinha fracassado seis vezes em semifinais ou finais de Jogos Olímpicos e Mundiais”?

A primeira metade do ciclo de Pequim-2008 terminava com o mesmo questionamento tão veiculado no pós-Atenas. Mas a cara do time de Zé Roberto ficara mais bem definida, especialmente com os retornos da levantadora Fofão e da central Walewska, os experimentos na entrada de rede e o despontar de Fabi como primeira opção de líbero, no Mundial. Mundial que também marcou a volta da ponta Paula Pequeno à Amarelinha, após o combo contusão + gravidez que a tirou dos planos de Zé por mais de um ano.

E foi assim que José Roberto Guimarães e comandadas atravessaram o complexo 2006, já sendo capazes de vislumbrar uma pontinha da Muralha da China aparecendo pelo retrovisor.

Elenco do Brasil no quarto ano de Zé Roberto – 2006

Montreux Volley Masters (Torneio de Montreux):

Levantadoras: Fofão e Carol Albuquerque
Ponteiras: Jaqueline e Sassá
Opostas: Renatinha, Joycinha, Mari e Sheilla
Centrais: Walewska, Fabiana, Carol Gattaz e Valeskinha
Líberos: Fabi e Arlene

Troféu Valle D’Aosta (Torneio de Courmayer):

Levantadoras: Fofão e Dani Lins
Ponteiras: Jaqueline e Sassá
Opostas: Renatinha, Mari e Sheilla
Centrais: Walewska, Fabiana e Valeskinha
Líberos: Fabi e Arlene

Copa Pan-Americana:

Levantadoras: Dani Lins e Marcelle
Ponteiras: Natália e Fe Garay
Opostas: Mari, Joycinha, Renatinha e Sheilla
Centrais: Fabiana, Carol Gattaz, Thaisa e Valeskinha
Líbero: Arlene

Grand Prix (jogadoras que atuaram ao longo da campanha):

Levantadoras: Fofão e Carol Albuquerque
Ponteiras: Jaqueline, Sassá, Mari e Valeskinha
Opostas: Sheilla, Renatinha e Joycinha
Centrais: Walewska, Fabiana e Carol Gattaz
Líbero: Arlene e Fabi

Campeonato Mundial:

Levantadoras: Fofão e Carol Albuquerque
Ponteiras: Jaqueline, Sassá, Mari e Paula Pequeno
Opostas: Sheilla e Renatinha
Centrais: Walewska, Fabiana e Carol Gattaz
Líbero: Fabi

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