2010: vice no Mundial, numa incomum temporada sem títulos | Especial Zé Roberto, 20 anos na Seleção Brasileira feminina de vôlei
A situação não era nova. Cada lado se conhecia bem – muito bem, aliás.
Já era o quarto jogo, valendo, entre Brasil e Japão num intervalo de 12 meses. Japão... Adversário que as comandadas de José Roberto Guimarães acostumaram-se a bater. Vencendo oito dos últimos nove confrontos diretos.
Só tinha um porém. A única derrota rolou logo no duelo anterior. E não foi uma derrota qualquer. O 3x2 das japonesas, no fim de agosto, contribuiu para a Seleção feminina não alcançar o tri do Grand Prix.
Aliás, tinha outros poréns. O Japão vivia boa fase. Sediava aquele Campeonato Mundial. Frequentava a semifinal do bendito depois de 28 anos. Ah, e ainda abriu 2x0 na partida, disputada em 13 de novembro – contagiado por 11 mil espectadores eufóricos no estádio nacional Yoyogi.
O segundo set foi uma batalha: 35-33 às anfitriãs, que sobreviveram a nove set points verdes e amarelos. Parecia que não ia rolar. Na terceira parcial, o Japão chegou a ter 16-14. Mas o Brasil remou. Fechou em 25-22, reprisando o placar adiante. E levou no tie-break (15-11). Das 12 relacionadas, 10 seriam utilizadas por Zé para reagirem e classificarem a equipe à segunda final mundial seguida.
Estava garantida a chance brasileira de lutar, no dia seguinte, por sua prioridade na temporada 2010.
Comparado a 2009, o ano da SFV foi consideravelmente menos lotado. Começou com a formação juvenil (que incluía a futura medalhista olímpica Bia) disputando a Copa Pan-Americana em junho, com Luizomar de Moura. Ficou em oitavo, no México. O torneio classificava para o Grand Prix de 2011 e, por conta do resultado modesto, a participação vindoura da Seleção ficou em cheque. Dependeria da Federação Internacional.
Enquanto isso, no Grand Prix da temporada corrente, o quadro principal alcançou a fase definitiva. A defesa do título, contudo, parou no revés para o Japão – e noutro para os Estados Unidos, donos do caneco. Ainda assim, o Brasil subiu ao pódio na China, como vice, em agosto.
Destaque para a briga na mão: Fabíola ressurgiu nas convocações e transformou-se em titular no decorrer da classificatória. Na ponta, Jaqueline consolidou-se, eleita a melhor atacante do campeonato. Nem parecia ter passado um ano longe do time, resolvendo questões pessoais. Suas duplas é que cortaram um dobrado – tanto Mari quanto Paula Pequeno contundiram-se na etapa final, abrindo espaço para Natália.
Voltando ao Mundial... A Seleça rumou invicta à decisão, reprisando 2006 – apesar de certos sustos. Fora a semi com o Japão, encarou um inesperado set desempate contra a República Checa, ainda na primeira fase de grupos. As checas, vale ressaltar, bateriam a Itália na mesma chave. Dani Lins novamente saiu jogando, com Fabíola virando a primeira levantadora após as pelejas iniciais. Fernanda Garay complementou o rol de ponteiras, em função das lesões de Paula e Mari.
Carol Gattaz e Camila Brait fecharam o plantel de 14, sendo relacionadas a uma das contendas – a de estreia, diante do Quênia.
À beira do reencontro com a Rússia, a imprensa nacional destacava o novo patamar do Brasil. Se anteriormente o vôlei do país buscava fincar-se na prateleira de cima, respondendo a acusações de “amarelar”, agora vinha como campeão de Olimpíada. Querendo dobradinha. Só que a caminhada das russas era sólida. Não tinham perdido nenhum jogo, também. E contavam com Gamova (“a melhor atacante de bolas altas do mundo”) e Sokolova (que “está melhor do que no passado”, alertava Zé Roberto).
O desfecho mundial exigiria todos os sets possíveis.
Primeiro, Brasil. 25-21.
Segundo, Rússia. 25-17.
Terceiro, Brasil. 25-20.
Quarto, Rússia. 25-14.
E veio o tie-break. As europeias cresceram na reta de chegada e faturaram o bi: 15-11. Gamova, o grande nome. Das 53 bolas que atacou, botou 29 no chão, a oposta – 35 pontos, no total.
“Estou triste pela derrota, mas feliz com o que a equipe apresentou. Foi um pecado. A gente sai de cabeça erguida”, declararia Zé. Que encarava situação inédita: concluir uma temporada sem erguer nenhum troféu com o grupo brasileiro das mulheres.
Mesmo com a prata, a Seleça foi recebida sob aplausos no retorno para casa. A consistência era inegável: desde que Zé assumira o comando, o time principal só não pegara pódio de competição uma única vez:
“Em 2007, um quinto lugar no Grand Prix. Então, a gente tem que ter orgulho, sim, desse segundo lugar”, enalteceria Fabi.
Quanto ao futuro da equipe? O comandante mostrou confiança: “A gente sabe que esse grupo tem força. (...) Eu vi uma harmonia muito grande entre as jogadoras.”
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Elenco do Brasil no
oitavo ano de Zé Roberto – 2010
Copa Pan-Americana:
Levantadoras: Pri Heldes e Rosane
Ponteiras: Paquiardi, Gabiru, Carol Won-Held e Fernanda Kuchenbecker
Opostas: Sthefanie e Duda Kraisch
Centrais: Bia, Marjorie e Fran Jacintho
Líbero: Killara
Grand Prix (jogadoras
relacionadas às partidas, ao longo da competição):
Levantadoras: Fabíola e Dani Lins
Ponteiras: Jaqueline, Mari, Paula Pequeno, Natália e Sassá
Opostas: Sheilla e Joycinha
Centrais: Fabiana, Thaisa e Adenizia
Líbero: Fabi e Camila Brait
Campeonato Mundial:
Levantadoras: Fabíola e Dani Lins
Ponteiras: Natália, Jaqueline, Sassá e Fernanda Garay
Opostas: Sheilla e Joycinha
Centrais: Fabiana, Thaisa, Adenizia e Carol Gattaz
Líbero: Fabi e Camila Brait
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Confira os demais textos do Especial Zé Roberto, 20 anos na Seleção Brasileira feminina:
- 2003: Como Zé Roberto virou técnico da Seleção
- 2004: Da euforia do Grand Prix ao 24-19
- 2005: Quase 95% de aproveitamento
- 2006: Polêmica, títulos em sequência e volta à final do Mundial
- 2007: Prata no Pan mantém a desconfiança
- 2008: Auge na hora certa, ouro em Pequim
- 2009: Rendimento alto e busca pela sucessora de Fofão


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