2012: o ouro mais cinematográfico de todos os tempos | Especial Zé Roberto, 20 anos na Seleção Brasileira feminina de vôlei

Brasil e Rússia disputam lance, em partida das quartas-de-final da Olimpíada de 2012, no vôlei feminino. No lance, vê-se a central Fabiana, posicionada no canto esquerdo levemente superior, prestes a atacar a bola que encerrou o jogo em favor do Brasil. Ela é marcada pela atleta russa Goncharova, do outro lado da rede. A imagem está em diagonal. Na parte superior da quadra, estão as brasileiras, de camisa amarela e shorts azul escuro. Na parte de baixo, estão as russas, de vermelho com faixas laterais em azul. Ambos os times usam meias brancas. A quadra é laranja, e seu entorno está entre o verde e o azul. É possível ver, no canto esquerdo da imagem, o treinador da Rússia, vestido de camiseta azul escura e calça azul, num tom mais claro. Na parte superior direita, vê-se o árbitro de cadeira.
(Fabiana decide as quartas-de-final contra a Rússia. Imagem: reprodução/Youtube da Olimpíada)

Estados Unidos, Rússia, China... O Brasil da era José Roberto Guimarães teve várias adversárias importantes ao longo da história. Mas a mais significativa talvez tenha sido a... Coreia do Sul.

A chegada de Zé à Seleção feminina de vôlei, por exemplo, foi possibilitada por uma derrota de 3x0 para as coreanas, em 2003. E, nove temporadas depois, outra pedalada asiática fez o BRA riscar o manual. Repensar. E se unir para obter, nos Jogos de Londres, seu segundo ouro olímpico.

Esta caminhada inglesa divergiu da de Pequim. Em 2008, o país sobrou. Chegou voando e venceu beirando a excelência. Em 2012, não.

“O que me preocupava (...) era exatamente o que eu tinha passado com os meninos, de 93 a 96: o fato de conquistar, de ter feito uma coisa legal – ganhar uma medalha de ouro em 92 – e depois começar muita exposição de mídia. Muito oba-oba. Menos treinamento.

“(...) O time não tava da mesma maneira que em Pequim. A gente precisava ter uma superação”, diria Zé Roberto no documentário “Mulheres de ouro: a história de uma conquista”, do SporTV.


A demora no carimbo do passaporte não ajudou. A vaga só veio no pré-olímpico sul-americano, a dois meses e meio da estreia olímpica. O título vindo em São Carlos, em sets diretos contra o Peru.

Os cortes para Londres botaram mais lenha na fogueira interna. Fabíola e Juciely foram comunicadas da dispensa no saguão do aeroporto, voltando do Grand Prix. Isso não caiu bem no elenco. E Mari...

Mari não rendia o esperado. Perdeu o pré-olímpico por lesões e, quando voltou à Seleção, retornou à função de oposta. A ideia era soltá-la, deixá-la sem a obrigação do passe. Só que a figura não mudou de coisa. A comissão, então, decidiu cortá-la. Preferindo Tandara na reserva de Sheilla.

Em coluna no UOL, o jornalista Bruno Voloch mencionou um possível desgaste na relação de Mari com as companheiras – sobretudo Sheilla. Seu corte sendo, portanto, além da questão técnica, uma maneira de Zé “ter ou tentar manter o grupo nas mãos”.

No fim do ano, a extrema contestaria bastante sua saída. À revista IstoÉ 2016, ela desabafaria:

“O meu corte atrapalhou muito o grupo. Sei disso porque falo com as jogadoras. As meninas se fecharam e se uniram pra conseguir o título. A relação entre o Zé Roberto e as atletas estava muito desgastada. Se elas não tivessem parado e conversado pra fazer tudo de novo, o ouro não teria acontecido. Elas são realmente as grandes merecedoras da medalha.”

Mari tinha razão? Só quem esteve lá dentro pode afirmar. Mas uma coisa chamaria atenção: as colegas que se pronunciariam a respeito da polêmica – incluindo Fabi, Sheilla e a capitã Fabiana – não divergiriam tanto do explanado pela ponta/oposta.

A CT podia concordar (de forma unânime) que Mari precisava ser cortada. Entretanto, algo mais profundo tinha de acontecer para restaurar a coesão.

Esse algo mais profundo veio após o 3x0 da Coreia do Sul, na fase de grupos da Olimpíada (21 pontos de Kim, futura MVP e maior pontuadora da competição).


Comissão e atletas teriam uma reunião, na qual as jogadoras foram lembradas, uma a uma, do porquê de terem sido escolhidas. Zé flexibilizaria as normas. Buscaria aproximar-se das comandadas. Mudanças na esquadra titular seriam feitas. E o resto... Você sabe.

ANTES DOS JOGOS

Fernandinha se tornou a grande novidade no Grand Prix, entre junho e julho. A levantadora não tinha feito parte do ciclo. E chegou chegando. Terminou o certame jogando – e manteria o status nas primeiras partidas em solo britânico.

Várias atletas da equipe B brasileira, que disputaria Copa Yeltsin e Copa Pan-Americana em julho, sob orientação do assistente Cláudio Pinheiro, puderam atuar na primeira semana do Grand Prix – no qual o Brasa foi vice-campeão. Entre as novatas, a ponteira Gabi, de 18 anos recém-completos.

Na Yeltsin, o conjunto alternativo ficou com o bronze. Título da Rússia, que atuou completa. Na Copa Pan, a medalha obtida foi a de prata, perdida a decisão para os EUA.

No grupo principal, Sassá (lesionada) e Camila Brait foram os últimos cortes na Seleça que suaria a camisa na terra da Rainha. E Natália ganhou o voto de confiança de Zé para ficar no plantel – ainda que sua condição física despertasse dúvidas, inicialmente.

ROTEIRO DE CINEMA

O conjunto verde e amarelo derrotou China (3x2) e Sérvia (3x0) no fechamento da primeira fase da Olimpíada. Só que essas vitórias podiam ter sido em vão.

Caso os Estados Unidos, invictos, perdessem para a Turquia na última rodada, era fim de linha para o Brasil. As principais favoritas ao título, porém, superaram as pupilas de Marco Aurélio Motta por 3x0. E possibilitaram a Canarinho avançar. Na quarta e última vaga da chave. Pegando a Rússia, nas quartas. Líder da outra seção.

Aí, jovem... Tome emoção.


Enquanto as russas somavam match points no tie-break (seis, no total), Dani Lins não negociou. Mandou quase todas para Sheilla subtraí-los no side out. Até que, com 19-18 a favor europeu, a equipe de Sokolova e companhia conseguiu o contra-ataque que podia lhe dar a vitória. Goncharova atacou na entrada de rede e Jaqueline defendeu. Na sequência, Sheilla experimentou do fundo. O bloqueio resvalou... Gamova não efetuou a defesa... E o Brasil seguiu vivo.

Fernanda Garay (outra que, como Dani Lins, ganhou a titularidade já com a Olimpíada correndo) marcou um ponto de saque... Fabiana fechou o rally seguinte... E a Seleção passou, no complexo de Earls Court.

Depois disso, superar o Japão nas semi (3x0) foi até protocolar.

É claro, contudo, que a disputa do ouro também teria drama. Porque o primeiro set terminou em atropelo dos Estados Unidos: 25-11.

Dava para reverter?

Dava.

Zé Roberto mudou a prioridade no serviço – cortesia das observações de derrotas anteriores – e o panorama alterou-se. A Seleção prevaleceu nos sets seguintes com surpreendente facilidade: 25-17, 25-20 e 25-17. Concluiu a partida em 3x1, dando o troco pelo revés sofrido ante as americanas na etapa classificatória. E faturou o bi, em 11 de agosto.

Como diria Fabi, no futuro... Nem Woody Allen bolaria estrutura narrativa tão cinematográfica para uma medalha de ouro.


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Elenco do Brasil no décimo ano de Zé Roberto – 2012

Pré-olímpico sul-americano

Levantadoras: Fabíola e Dani Lins
Ponteiras: Jaqueline, Fernanda Garay e Paula Pequeno
Opostas: Sheilla e Tandara
Centrais: Thaisa, Adenizia e Fabiana
Líberos: Fabi e Camila Brait

Grand Prix (jogadoras relacionadas às partidas, ao longo da competição)

Levantadoras: Fernandinha, Fabíola e Dani Lins
Ponteiras: Paula Pequeno, Fernanda Garay, Jaqueline, Mari, Pri Daroit e Gabi
Opostas: Sheilla, Tandara, Joycinha e Jú Nogueira
Centrais: Thaisa, Adenizia, Fabiana, Juciely e Natasha
Líberos: Fabi e Camila Brait

Copa Yeltsin

Levantadoras: Claudinha e Ana Tiemi
Ponteiras: Sassá, Gabi e Pri Daroit
Opostas: Joycinha e Jú Nogueira
Centrais: Natasha, Andressa e Leticia Hage
Líbero: Suelen

Copa Pan-Americana

Levantadoras: Claudinha e Ana Tiemi
Ponteiras: Pri Daroit, Gabi e Samara
Opostas: Joycinha e Jú Nogueira
Centrais: Natasha, Andressa e Leticia Hage
Líbero: Suelen

Olimpíada

Levantadoras: Dani Lins e Fernandinha
Ponteiras: Jaqueline, Fernanda Garay, Paula Pequeno e Natália
Opostas: Sheilla e Tandara
Centrais: Fabiana, Thaisa e Adenizia
Líbero: Fabi

Time brasileiro acena para o público, no ginásio montado no complexo de Earls Court, na Inglaterra. As jogadoras vestem agasalho amarelo e calça preta. Estão no pódio da Olimpíada de 2012, na qual conquistaram o ouro. Abaixo do pódio, vê-se um letreiro mencionando o título da equipe, em inglês.

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Confira os demais textos do Especial Zé Roberto, 20 anos na Seleção Brasileira feminina:

- 2003: Como Zé Roberto virou técnico da Seleção
- 2004: Da euforia do Grand Prix ao 24-19
- 2005: Quase 95% de aproveitamento
- 2006: Polêmica, títulos em sequência e volta à final do Mundial
- 2007: Prata no Pan mantém a desconfiança
- 2008: Auge na hora certa, ouro em Pequim
- 2009: Rendimento alto e busca pela sucessora de Fofão
- 2010: Vice no Mundial, numa temporada incomum
- 2011: Título no Pan, vaga olímpica adiada

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